Falámos sobre a Vida. Sobre as
escolhas que fazemos. O que deixamos em detrimento de tantas e tantas outras. Disse-vos
que, no fundo, não deverão dar tanta importância, assim, a uma apresentação, por
muito importante que seja, porque o que interessa é o que se retém do Processo.
Transformar a Vida na Apresentação é viver um fogo-de-artifício fátuo, ainda que
ele possa ser esmagador e belo. É preciso reter o Crescimento. É preciso
recordar aquilo que o Teatro pode trazer a cada um de nós para o utilizarmos
como instrumento. E percebemos que, hoje em particular, tínhamos elementos a
tomarem decisões muito importantes. Não pude deixar de ficar com os olhos
estranhamente brilhantes. Porque senti que estavam a deixar outras Vidas em
nome do Teatro. Amo-o, como sabem. Quero que o recordem. Quero que saibam o significado
do desafio. Nem sempre os Deuses estão connosco, como sabem. Costumam enviar-nos
estranhos recados que nem sempre compreendemos. Mas são indícios de algo
divino. No fundo, o Homem sempre o quis ser. E sempre combateu as entidades divinas
para o ser. O teatro tem-no refletido tanto. Acho que é isso em que nos
transformamos no Palco. Em Deuses. Porque fazemos Magia como ninguém. Porque
nos transformamos. Porque emprestamos o nosso corpo a personagens que nos
gritam no fundo de uma folha de papel.
E eles, em nós, saem. E choram. E gritam. E arrependem-se. E perdoam. E afastam os que mais amam. Quantas vezes afastamos aqueles que nos são mais especiais? Quantas?
Deixem-nos
sair, dizem eles, deixem-nos sair.
E eles, em nós, saem. E choram. E gritam. E arrependem-se. E perdoam. E afastam os que mais amam. Quantas vezes afastamos aqueles que nos são mais especiais? Quantas?
Amanhã será mais um dia especial.
Vamos voltar a ter a casa cheia. Haverá os que se vão sentar e que não
perceberão nada disto pela banalidade de vida em que vivem. Não deixa de ser
uma forma. Outros teremos que nos verão com gosto, desejosos de fazer o que
fazemos tão bem. Porque o fazemos, acreditem. E no dia seguinte, sentiremos um
vazio. Pelo fim das aulas, pelo fim… ponto de interrogação… deste projeto.
Talvez voltemos a ele. Ou não. E como tudo na Vida, também estas personagens
clamarão pelo luto. É preciso que elas partam. Outros dar-lhe-ão corpo noutro Tempo
e noutro Espaço. Elas merecem. E nós, que queremos mais, já estaremos a
conversar, numa qualquer esplanada-palco, com outras personagens, a pedir-lhes
que nos digam quem são. E elas, com um sorriso matreiro, apenas nos dirão:
descubram-nos, então.
Descubram-nos, então. E nós, que
somos hYbris, assim o faremos!
Paulo Martins





























