Sabem,
Ontem à noite, depois de ter
mergulhado o silêncio onde antes houvera Vida, depois das portas fechadas, não
fui logo para casa. No tempo em que estava na Faculdade costumava ir, a meio da
noite se fosse o caso, quase como ontem, entre os trabalhos a entregar e as noitadas
e as diretas, a um local
relativamente perto do espaço onde me encontrava. A Praça do Chile. Nessa Praça
existia uma Fábrica de bolos, que ainda hoje lá está. Descem-se umas escadas
estreitas, como se fossemos em direção a uma espécie de catacumbas, para comer
os bolos quentes que continuam a servir. Bolas de Berlim, pão com chouriço, mil
folhas, croissants com recheio ou simples, o que quiserem. Um dia, quando forem
para a Faculdade, ou não, deverão passar pela experiência de lá irem, descerem
aquelas escadas e com a companhia de amigos, colegas, entre outros, pedirem
bolos. Sabem a Vida. A Vida. Normalmente, quando era possível, íamos depois à
Ribeira beber um chocolate quente. Custava um pouco regressar. Nessa altura,
também os autocarros se deitavam para acordarem e começarem a resmungar por
volta das cinco da matina. Mas o prazer era o de ir a comer os bolos pela rua, altas
horas da noite, chegar à Ribeira e pedir o chocolate quente. Chegávamos, depois,
à Praça do “Senhor do Adeus” e lá voltava ao trabalho. Ainda hoje recordo as
noites de Inverno mas são elas que cada vez mais me aquecem a Alma, hoje em
dia.
Ontem, quando saí da escola, ao meter-me no carro,
precisei de fazer isto. Mudaram-se os tempos, envelheci. Mas o sabor do chocolate
quente continua-me na boca, assim como o dos bolos. Estava cansado. Muito
mesmo. Mas fui. E nos meus olhos passavam as imagens do que vira naquele palco.
Ia Cheio de Vocês. Ia Cheio de Vocês. Sabem, a vossa forma de estar na Vida
é-me, talvez, cada vez mais estranha. Como alguém me disse já este ano, “vivemos
em velocidade”. Eu, então, recordo as palavras do Coro. A sensatez. A velhice.
Aprecio muito mais agora. É natural. Tenho, apenas, mais anos porque a Loucura
continuo a trazê-la cá dentro. É a Loucura que nos leva à Índia, é a Loucura
que nos leva ao Espaço. Esta Loucura é necessária. Também eu me adapto. E como
tantas vezes vos digo, “levo a vida a partir-vos a cabeça” porque gostava de
sentir que antes do Grande Cais, vos ensinei algo, em especial no Teatro. É
aqui que lidamos essencialmente com os sentimentos. Os tecnocratas querem-nos
Máquinas-Saber noutro espaço cheio de cadeiras. Mas aqui rimos, choramos,
saltamos, corremos, damos as mãos, olhamo-nos. Já viram quantas vezes nos
olhamos, com olhos de ver, numa Sala-Cadeira? E na Sala-R? E enquanto conduzia,
via-vos passar à minha frente. Com asas, com máscaras, com medos (Quem nos leva
os nossos fantasmas?), com vontade de viver. Ia Cheio de Vocês. É assim que têm
que continuar. Com vontade de Viver e a Acreditar. Nunca deixem de acreditar
naquilo que veem ao espelho, nunca! E se virem algo mais triste por trás, a
olhar, fechem os olhos, respirem, sintam o Abraço-hYbris, levantem a cabeça e
sigam em frente. E lembrem-se sempre: nem sempre é preciso chorar para fazer
Teatro. Basta querer. (Disse-mo Sófocles, enquanto subia, de boca cheia, deliciado
com um bolo ainda a fumegar…!)
E por isso, Obrigado, Filipa e
Rita. Obrigado, B.. Obrigado, Daniela e Diana. Fábio, Pedro, Obrigado. Obrigado,
Luana. Obrigado, Wilidgelma. Inês e Inês, Obrigado. Carla e Pedro, Obrigado. Sandra. Obrigado (Obrigado
a todos, a todos aqueles os que nos ajudaram, que nos abraçaram, que, acima de
tudo, acreditaram em nós e nos disseram que seríamos capazes).
Fiquem hYbris. Mais do que nunca.
“Boa noite. hYbris, o Grupo de
Teatro agradece a vossa presença. Este texto que vão ver é…”