Um palco. Uma caixa negra. Rotundas de circulação.
Projetores. Pequenas roldanas. Cabos de aço. Tábuas de madeira já tantas e
tantas vezes pisada. Para lá, para cá. Vão sendo testemunhas de sorrisos, de
lágrimas, de partilhas…
Têm sido muitas, as partilhas. Temo-nos confrontado com os
nossos fantasmas, temos olhado o público, ouvido os seus respirares, as suas
palmas de carinho e gratidão. Confrontamos deuses, emprestamo-nos a quem nos
pede para o fazermos. Ficarão as saudades, quando As virmos partir para outros
Corpos-Nós. Porque é preciso esvaziarmo-nos para depois darmos lugar a quem
chega. Adaptamo-nos a toda esta intrusão desejada. A Delas e a do público.
Começa por um sussurro. Depois, entram. Ouvimos o barulho das cadeiras e
procuramos adivinhar quem está e onde está. Sabemos sempre como será o final. O
menos importante e, naquele momento, o menos querido. Arrumaremos tudo para que
o Tempo nos possa apertar a mão e dizer-nos, em segredo, que está, de novo, na
hora. O breve aquecimento das vozes. O Estado de Prontidão. O frenesim interior
que quase nos atropela. Por vezes, o desejo súbito de sair dali, o quase-pânico.
Entra-se no palco. E em segundos somos Outros. E há uma magia indescritível nisto,
uma sensação única. A plenitude do palco só por alguns é conhecida. E há um
pairar sobre nós próprios. Vemo-nos a Ser, ouvimo-nos a Dizer. A velocidade
estonteante. Campos no seu melhor, a sorrir, ao fundo, a comentar em segredo
com Vicente, Régio, Sófocles, Sunnit e tantos outros. No 1º Balcão, Shakespeare
vai escrevendo mais uma comédia e referindo que todo o Mundo é um palco e é
nele que todo somos meros atores. E Somos. E amanhã, quando voltarmos a pisar
estas tábuas que nos sorrirão, o mundo voltará a ser um pouquinho Nosso.
Porque este é um mundo de Magia, de transformação, de
crescimento. Um mundo de abraços quentes e sorrisos cúmplices.
Afinal, o Mundo-hYbris.