É assim que saio de casa. A olhar e a tentar perceber se o que vejo é neve, se apenas granizo que se acumulou durante a noite. Paro, fotografo. Acorda-me a brisa gélida que me atravessa a alma. Procuro o carro, que não me recordo onde deixei. Continua o frio. Olho as nuvens cinzentas, escuras, que me olham com um sorriso, a prometerem novo vendaval. Recordo a cama quente e continuo. Há corações quentes para onde vou, há novas procuras, novos desafios. Dificilmente alguém compreenderá esta paixão. Os que lá estão sabem-na, conhecem-na. Os que não lá estão também. Sentem-na. Querem-na, ainda que em formas diferentes. Como na vida. A estabelecer prioridades. Mas a procurar ser o melhor possível.
O caminho é feito debaixo de uma chuva miúda e traquina. O regresso será feito com o granizo a fustigar violentamente o vidro do carro.
Já ele me espera, à estrada da Sala-R. Nota-se o sono no rosto de quem está. Mas a vontade de ali estar. “É a Hora”, diz o Poeta-Plural. Será a nossa, hoje. E será no Final.
“No mais Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada, e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda, e endurecida:
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a pátria, não, que está metida,
No gosto da cobiça, e na rudeza
D' hua austera, apagada, e vil tristeza.”
Disse-o o Poeta. E continuamos. Primeiro as cadeiras. Depois o chão. Está frio. O pequeno aquecedor procura trazer-nos algum conforto. A sala é grande. Mas maior é a vontade. “Não achas que as pessoas são uma coisa muito bonita?” Há pequenos toques de mão. Talvez fiquem para sempre. E continuamos. Teremos a magia do cinema. Veremos o arco-íris em estranhos bailados. Sorriremos no final.
Porque uma vez hYbris, sempre hYbris.
























